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sexta-feira, 17 de fevereiro de 2012

A GENTE SE ACOSTUMA

by Marina Colassanti


Eu sei que a gente se acostuma. Mas não devia.

A gente se acostuma a morar em apartamento de fundos e não ver vista que não sejam as janelas ao redor. E porque não tem vista logo se acostuma a não olhar para fora. E porque não olha para fora, logo se acostuma e não abrir de todo as cortinas. E porque não abre as cortinas, logo se acostuma a acender mais cedo a luz. E, à medida que se acostuma, se esquece do sol, se esquece do ar, esquece da amplidão.

A gente se acostuma a acordar sobressaltado porque está na hora. A tomar café correndo porque está atrasado. A ler o jornal no ônibus porque não pode perder tempo. A comer sanduíche porque não dá para almoçar. A sair do trabalho porque já é noite. A cochilar no ônibus porque está cansado. A deitar cedo e dormir pesado sem ter vivido o dia.

A gente se acostuma a abrir o jornal e a ler sobre a guerra. E aceitando a guerra, aceita os mortos e que haja números para os mortos. E aceitando os números, aceita não acreditar nas negociações de paz. E não aceitando as negociações de paz, aceitar ler todo dia de guerra, dos números, da longa duração.

A gente se acostuma a esperar o dia inteiro e ouvir no telefone: “hoje não posso ir”. A sorrir para as pessoas sem receber um sorriso de volta. A ser ignorado quando precisa tanto ser visto.

A gente se acostuma a pagar por tudo o que se deseja e necessita. E a lutar para ganhar com que pagar. E a ganhar menos do que precisa. E a fazer fila para pagar. E a pagar mais do que as coisas valem. E a saber que cada vez pagará mais. E a procurar mais trabalho, para ganhar mais dinheiro, para ter com que pagar nas filas em que se cobra.

A gente se acostuma a andar nas ruas e ver cartazes. A abrir as revistas e ler artigos. A ligar a televisão e assistir comerciais. A ir ao cinema e engolir publicidade. A ser instigado, conduzido, desnorteado, lançado na infindável catarata dos produtos.

A gente se acostuma à poluição, às salas fechadas de ar condicionado e ao cheiro de cigarros. À luz artificial de ligeiro tremor. Ao choque que os olhos levam à luz natural. Às bactérias de água potável. À contaminação da água do mar. À morte lenta dos rios. Se acostuma a não ouvir passarinhos, a não ter galo de madrugada, a não colher fruta no pé, a não ter sequer uma planta por perto.

A gente se acostuma a coisas demais para não sofrer. Em doses pequenas, tentando não perceber, vai afastando uma dor aqui, um ressentimento ali, uma revolta lá.
Se o cinema está cheio, a gente senta na primeira fila e torce um pouco o pescoço. Se a praia está contaminada, a gente só molha os pés e sua o resto do corpo. Se o trabalho está duro, a gente se consola pensando no fim de semana. E se no fim de semana não há muito que fazer, a gente vai dormir cedo e ainda fica satisfeito porque tem muito sono atrasado.

A gente se acostuma a não falar na aspereza para preservar a pele. Se acostuma para evitar sangramentos, para esquivar-se da faca e da baioneta, para poupar o peito.

A gente se acostuma para poupar a vida.

Que aos poucos se gasta, e que, de tanto acostumar, se perde de si mesma.


* Seria isso algo a ver com um não renovar-se? Um permanecer na rotina???!!!

22 comentários:

  1. Amo esse texto Manoel, é muito verdadeiro, infelizmente a gente se acostuma muito rapidamente ao que não nos faz bem.

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    1. Renata, infelizmente isso ocorre mesmo. Somos muito acomodados e por que não dizer (até com um pouco de vergonha!) interesseiros. Até para "ir para o Céu" corremos atrás de Deus por interesse. O pior é que Ele sabe. O bom é que nos encantamos com Ele e acabamos por sermos pescados, não é?
      Chiiiii! Acho que filosofei muito.
      Abraço, Renata.

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  2. Eu li um trecho de João Ubaldo Ribeiro muito parecido que termina assim: "Eu sei que é lugar-comum, mas minha filosofia não vai muito além disso. O governo é o que merecemos, os serviços são os que merecemos, as cidades são as que merecemos, as praias de merda são as que merecemos.

    Claro, poucos de nós reconhecem que temos alguma coisa a ver com o que ocorre, mas temos, pois, afinal, somos cidadãos e partes desse todo de que nos queixamos. Tenho certeza de que acharíamos formas de afirmar e exercer plenamente nossos direitos, se nos dispuséssemos a isso, mas o problema é que já nos acostumamos, a gente se acostuma a tudo". Eu concordo com ele e faço minhas as palavras dele.

    Isso tem algo a ver em não querer sair do próprio mundinho que construímos a nossa volta. Custa menos, doí menos, pesa menos!!!
    Abraços

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    1. Cleusa Klein, é verdade mesmo. Nós temos a capacidade de mudar muita coisa, mas somos "encantados" por falsas teorias e deixamos o real e simples para depois. Aí não adianta reclamar, não é?
      Gosto muito das crônicas do João Ubaldo.
      Gostei muito de vê-la aqui.
      Abraços.

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  3. Claro que sim, Manoel, o facto de nos acostumarmos a tudo, é que nos faz cair na rotina e esquecer o que de melhor tem a vida!

    Beijinho,
    Ana Martins

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    1. Ana, é verdade mesmo. Acomodação total. Muitas vezes até um pouco de preguiça, rs...rs.
      Beijo com carinho.

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  4. Manoel querido amigo. AMO esse texto. Amo o amor da Marina e do Affonso.
    A gente se acostuma porque é difícil abandonar hábitos. O medo do novo, de mudar e ficar ainda nos paralisa.
    E depois falamos que não gostamos de rotina.....vai entender.
    Beijinhos jardineiros

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    1. Lucia Luz, lembrei de uma coisa. Tive um professor de português muito inteligente e irônico. Ele sempre dizia que nós, seres humanos, nos definíamos como pessoas que aplicam:
      " Lex minimi fonati"
      que quer dizer: Lei do menor esforço. Então, mudar prá que?!
      Rs...rs.
      Merece uma reflexão.
      Beijos mutantes.

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  5. Renovar sempre é preciso. Viver acostumado com tudo, faz com que seu mundo seja apenas preto e branco. Bjs

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    1. Márcia, que legal! Isso mesmo. Perde o colorido da vida. Gostei!
      Beijo.

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  6. Oi vizinho da blogosfera! Adorei sua visita!
    Amei o texto! É verdade mesmo. Hoje comentei sobre essa questão que temos de aceitar-acostumar-buscar o que é mais fácil e rápido, pra vida passar ligeiro... e sobre o quanto estamos "perdendo", ou melhor, deixando de lado.
    Abraço ou beijo, como preferir! kkk

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    1. Deh, também adorei a sua visita, minha web-vizinha, rs...rs. Fiquei muito feliz por vê-la aqui e pelo seu fofo comentário. Você é muito legal.
      Beijo no seu coração.

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  7. Manoel querido, estou aui, sentadinha na minha sacada sri lankesa, aproveitando que a internet esta funcionando, que as meninas nao estao surtando e que o mar esta cantando pra me embalar.
    Eu nao me acostumo. Mas eu vejo muita gente se acomodar, planejar a tranquilidade e o sossego e abraca-los com fervor.

    Hoje quase cedi. Achei que a cama do hotel era muito mais confortavel pra blogar, pra ler os blogs amigos, pra relaxar. E quase perdi a brisa do mar, o cheiro de sal.

    Ainda bem que nao me acostumei.

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    1. Inaie, ainda bem que não acostumou. Imagine perder essa brisa tão gostosa. Boas férias (sem surto) prá você.

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  8. Acho que a gente se acostuma a esses "códigos"e vai achando normal; talvez não ache, simplesmente aperta o botão do tal código e vai levando.
    Adorei seu comentário lá no clareiras. bj

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    1. Ana Paula, com o progresso tecnológico levamos a vida no "botão do automático". Só sentimos alguma estranheza quando falta o essencial (o ar, por exemplo, rs.).
      Obrigado por ter apreciado o meu comentário. Aquele caso é real.
      Bjos.

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  9. Ontem mesmo ouvi este texto na versão gravada com a voz da autora. Ele me tocou profundamente. Fez-me pensar no tempo que perdemos acomodados com o que nos incomoda.

    Lindo.

    Um beijo, Manoel

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    1. Michele, que ótimo isso. Nada como ouvir da própria autora, não é?
      Beijo.

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  10. Olá!!
    A gente se acostuma. Mas não deveria!!
    Não deveria mesmo! Essa questão de acostumar com todos esses fatores é a chamada zona de conforto, e essa zona de conforto é o medo de mudar, de arriscar, medo que vai tomando conta das pessoas. E esses medos matam nossos sonhos deixando um buraco na alma!
    Mas temos que criar coragem , “ larga o velho para seguir o novo” por que mudanças mostra desapego e coragem, e “não existe evolução sem mudanças”.
    Fácil falar né ? Eu mesma tenho que criar coragem e rever minha vida e fazer dela uma vida mais interessante, da uma colorida nela.

    "É coisa difícil renovar o que é antigo, dar responsabilidade ao que é novo, beleza ao que é obsoleto, luz ao que é escuro, graça ao que é desdenhado, confiança ao que é duvidoso." (Plínio, o velho)

    Beijos!

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    1. Alê, isso mesmo, “ larga o velho para seguir o novo”. É a explicação mais correta para se tomar a decisão do não acomodar-se.
      Beijos.

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  11. Muito legal o texto ^^ perfeito p/ refletir =]

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    1. KAT, fico feliz por poder provocar essa reflexão. Isso é muito bom.
      Beijo.

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